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São Paulo perde a chance de melhorar radicalmente seu transporte público

16/04/2018

São Paulo perde a chance de melhorar radicalmente seu transporte público

Prefeitura deve anunciar nesta semana novo edital de licitação do sistema, que atende 6 milhões de passageiros ao dia
 

Fonte: Folha 
 

A Prefeitura de São Paulo deve anunciar na próxima sexta-feira (20), o edital de licitação do novo sistema de ônibus da cidade. É um fato muito importante para o interesse público: cerca de seis milhões de pessoas, metade da população, usam coletivos diariamente, a um custo de R$ 4 por viagem e há muito a melhorar no transporte público na maior metrópole do país.

A licitação está cinco anos atrasada: foi iniciada pelo prefeito Fernando Haddad (PT) em 2013, interrompida por ele mesmo, retomada em 2015, interrompida pelo TCM, retomada em 2017, ficou em gestação lenta e agora será lançada. Entre o que Haddad queria e o que será anunciado, podemos dizer que a montanha pariu um rato.

Os paulistanos podem esperar muitas novidades pontuais, mas poucas alterações realmente importantes no sistema. Todas as mudanças estão voltadas para tirar redundâncias de linhas e dar mais velocidade nos corredores e grandes avenidas para que o deslocamento do cidadão para o trabalho e a volta fiquem mais rápidos. Isso é bom.

Muitas linhas vão mudar de nome ou trajeto, mas a rotina dos usuários não deverá ser alterada se, como promete a prefeitura, o atendimento aos pontos for feito por rotas de trajeto muito semelhante com nome diferente. Muitos ônibus com destinos iguais andam sobre as mesmas vias, às vezes vazias, congestionando corredores e avenidas à toa.

Juntar as linhas e aumentar a frequência dos veículos é bom para os usuários e é o que recomendam todos os técnicos e estudiosos de transportes públicos em São Paulo e outras metrópoles. Mudanças são necessárias até porque o sistema está praticamente igual ao que era quando Marta Suplicy o lançou em 2003/2004.

Pense em tudo que está diferente desde então e vamos combinar que é preciso mudar para dar conta da vida em movimento. Este é um ano de eleição e o ex-prefeito João Doria (PSDB) se lançou em campanha para governador com apoio do vice e novo prefeito, Bruno Covas. A disputa eleitoral vai moldar muitas das reações aos anúncios: políticos de oposição a Doria vão atacar a licitação para diminuí-lo. É bom o (e)leitor ficar vacinado: a espinha dorsal do plano de linhas foi montada pela secretaria de Transportes da gestão de Fernando Haddad (PT), com apoio dos melhores técnicos do setor.

Desconfie das críticas que alegam que estão sendo eliminadas rotas e o sistema vai piorar. Pelo que foi anunciado até agora não há razões para acreditar nisso. Mas acima das picuinhas eleitorais e das reações previsíveis dos interesses políticos de curto prazo, é preciso notar que o PT de Haddad e Jilmar Tatto e o PSDB de Doria, Covas e Sergio Avelleda perderam a oportunidade histórica de incorporar a lógica metropolitana na gestão dos transportes públicos da Grande São Paulo.

Só assim, seria possível fazer mudanças importantes que podem realmente melhorar o sistema com benefícios de longo prazo para paulistanos e seus vizinhos. São Paulo é a maior metrópole do hemisfério Sul. Diariamente uma população maior que a do Uruguai acorda e se desloca em torno de 90 minutos a duas horas para ir trabalhar ou estudar. Esse deslocamento chamado “pendular”, da periferia ao centro e de volta, não conhece as divisas de municípios. As pessoas moram onde conseguem a melhor equação de conforto e preço ou onde estão suas famílias; e trabalham onde conseguem ou obtêm os melhores salários. As duas coisas ficam distantes para milhões de moradores da metrópole.

Portanto, o interesse público dos habitantes da Grande São Paulo precisa ser atendido de forma metropolitana. Nas outras cidades, independentemente dos políticos, as empresas criaram um sistema integrado, o BOM (um bilhete único metropolitano) e avançam em uma coordenação centralizada. Aqui, tratamos como se a grande São Paulo fosse em outro Estado. Estava na hora de estabelecer linhas de ônibus regionais, independentemente das divisas políticas.

Mas para isso, prefeitos devem ceder parte de seu poder e o governo do Estado deve ter uma função de coordenador, sem ser o líder. Em uma autoridade metropolitana ideal, cada cidade deveria ter representantes, proporcionalmente aos passageiros que coloca no sistema, numa espécie de “assembleia metropolitana” que elegeria uma coordenação, com mandato para administrar de forma racional, conjuntamente, os transportes públicos de toda a região.

É o que acontece em outras cidades deste porte no planeta. Aqui, agora, a próxima chance de pensar algo nesse sentido será daqui a 20 ou 25 anos, quando terminar o contrato daquelas empresas que hoje controlam o sistema e, certamente, vão ganhar a nova licitação.

Afinal, só elas participarão, num troca-troca em que não invadirão os outros municípios da Grande São Paulo enquanto as empresas dos vizinhos tampouco virão bulir por aqui. Então, só podemos esperar um salto quântico nos transportes metropolitanos, como o que vivem Londres, Paris ou as cidades chinesas, para os anos 2038 ou 2043.

 

Leão Serva
Ex-secretário de Redação da Folha, é jornalista, escritor e coautor de 'Como Viver em SP sem Carro'.

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