Ex-presidente da SPTrans é preso em operação contra infiltração do PCC nas empresas de ônibus

17/09/2026

Fonte: G1

Levi dos Santos Oliveira também foi ex-secretário de Mobilidade e Trânsito da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e foi preso nesta quinta-feira (17) pela Operação Vectura Corrupta. Ação cumpre 16 mandados de prisão.

O ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, que também foi ex-secretário de Mobilidade e Trânsito da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), foi preso nesta quinta-feira (17), pela Operação Vectura Corrupta.

O ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, que também foi ex-secretário de Mobilidade e Trânsito da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) — Foto: Reprodução/Redes Sociais

A ação da Polícia Civil de São Paulo e do Ministério Público foi deflagrada nesta quinta-feira (17) e cumpre 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão. A ação é a terceira fase da investigação que apura a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo da capital paulista.

A defesa de Levi dos Santos Oliveira diz que ele não tem antecedentes, construiu ao longo de décadas, uma trajetória de relevantes serviços públicos prestados à cidade de São Paulo, atuando na SPTrans, onde se consolidou como referência técnica em sua área (leia a íntegra abaixo).

?? A SPTrans é uma empresa estatal da cidade de São Paulo, responsável por planejar, programar e fiscalizar o sistema de ônibus da capital.

A investigação aponta que decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política do ex-vereador de São Paulo Milton Leite (União Brasil).

Além de Levi, Milton Leite também é um dos alvos. Ele não foi encontrado pelos policiais e é considerado foragido.

Em nota, o ex-vereador afirmou que está viajando e negou estar foragido. “Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou.

Quem é Levi dos Santos Oliveira

Levi dos Santos Oliveira foi presidente da SPTrans no ano de 2020, indicado ao cargo pelo ex-prefeito Bruno Covas (PSDB). Após a morte de Covas e a assunção de Ricardo Nunes (MDB) ao cargo de prefeito, Levi deixou a SPTrans e assumiu a Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito.

Levi dos Santos Oliveira foi presidente da SPTrans no ano de 2020, indicado ao cargo pelo ex-prefeito Bruno Covas (PSDB). — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Ele ingressou na SPTrans em 1991 por meio de Seleção Pública da antiga CMTC, onde fez a sua carreira na área de planejamento e chegou a diretor de Planejamento de Transporte da empresa em janeiro de 2017.

Graduado em Ciências da Computação e pós-graduado em Planejamento de Mobilidade Urbana, Levi Oliveira assumiu a presidência da empresa com o objetivo de administrar o transporte público da capital paulista e aparar arestas com as empresas de ônibus da cidade.

Segundo os investigadores, apesar de Levi não aparecer como interlocutor direto de José Daniel Satilite, o "Alemão" do PCC, apontado como um dos personagens centrais do esquema, os dois teriam mantido encontros periódicos.

A investigação afirma que essas reuniões tinham como finalidade tratar de interesses da facção relacionados a empresas de transporte, especialmente após a deflagração da Operação Fim da Linha pelo Ministério Público de São Paulo, em 2024.

Outra frente da operação chegou a Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e era candidato a deputado estadual, mas teve o registro cassado. Ele também foi preso nesta quinta.

Danilo já havia sido alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Decurio. Segundo a Polícia Civil, a nova etapa da investigação identificou um "forte vínculo" dele com integrantes do PCC e indícios de que sua campanha à prefeitura teria sido financiada pela organização criminosa.

Nota da defesa de Levi

 

“O escritório Fernando José da Costa Advogados, que representa o Dr. Levi dos Santos Oliveira, foi surpreendido, na manhã desta quinta-feira, com a notícia de sua prisão. Levi dos Santos Oliveira, primário e sem antecedentes, construiu ao longo de décadas, uma trajetória de relevantes serviços públicos prestados à cidade de São Paulo, atuando na SPTrans, onde se consolidou como referência técnica em sua área. A defesa ainda não teve acesso aos autos, nem às circunstâncias que fundamentaram a medida. Tão logo tenha acesso ao conteúdo da decisão e aos elementos que a embasaram, adotará as medidas jurídicas cabíveis, com confiança nos meios legais para o pronto esclarecimento dos fatos e a revogação de sua segregação.”

 

Milton Leite também é alvo

Milton Leite não foi encontrado pelos policiais que foram à sua casa para cumprir o mandado. Segundo apurou a GloboNews, a polícia passou a considerá-lo foragido diante das circunstâncias encontradas no imóvel.

Milton Leite (União Brasil), ex-presidente da Câmara de SP — Foto: Paulo Gomes/TV Globo

Policiais permanecem no local para cumprir mandado de busca e apreensão. nMas ele diz que estava viajando em compromissos de campanha eleitoral e que vai se apresentar à polícia. Ele também negou as acusações.

De acordo com informações obtidas durante a diligência, Milton estava em casa até a tarde de quarta-feira (16). Uma funcionária relatou aos policiais que ele saiu à noite para um compromisso de campanha.

Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e atual candidato a deputado estadual.

Ao todo, a operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.

Investigação aponta influência de Milton Leite no setor de ônibus

Segundo apuração da GloboNews, a investigação aponta que decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política de Milton Leite. A conclusão foi sustentada, segundo investigadores, pela análise de interceptações envolvendo operadores e por elementos de outras investigações relacionadas ao papel decisório do ex-vereador.

No pedido que embasou a operação, Milton Leite é citado como responsável direto pela operação de algumas das empresas que, segundo a investigação, seriam controladas pela facção. O documento também menciona declarações de policiais militares, prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais ele seria o dono de fato da Transwolff.

Milton Leite deixou a vida pública no ano passado, depois de sete mandatos como vereador e de ter presidido a Câmara Municipal por quatro vezes. Atualmente, ele é presidente do União Brasil na cidade de São Paulo. Em julho, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista (UP), formada pelo União Brasil e pelo Progressistas (PP).

A Operação Vectura Corrupta é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.

 

12 empresas de ônibus na mira

 

A investigação identificou 12 empresas de transporte coletivo de passageiros que seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC: Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus Transportes, Norte Bus e Spencer Transportes.

Parte dessas companhias já apareceu em investigações anteriores da Polícia Civil e do Ministério Público sobre a atuação do PCC no setor.

A Transwolff, por exemplo, foi alvo da Operação Fim da Linha, e seu então presidente, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, foi preso sob suspeita de vínculos com a facção. A investigação da Vectura Corrupta também chama atenção para o fato de Alfa Rodobus e Sancetur terem assumido operações anteriormente realizadas por Transwolff e UpBus após a operação de 2024.

Segundo a Polícia Civil, os elementos reunidos apontam para uma possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital, com atuação de integrantes e intermediários do PCC em empresas e procedimentos licitatórios.

 

'Sintonia dos Gravatas'

 

Outra frente da operação investiga a chamada "Sintonia dos Gravatas", núcleo formado por advogados que, segundo a polícia, atuaria diretamente em benefício da organização criminosa, ultrapassando os limites do exercício profissional da advocacia.

Entre os investigados estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu. Segundo a investigação, escritórios e contas bancárias teriam sido utilizados para reuniões, movimentações financeiras e outras atividades de interesse da facção.

O principal investigado apontado nesta fase é José Daniel Satilite, conhecido como Alemão. A Polícia Civil afirma que ele integra o PCC e funcionaria como intermediário entre empresários, advogados, políticos, pessoas próximas a políticos e integrantes da facção.

 

Por Bruno Tavares, Rodrigo RodriguesIsabela Leite, TV Globo e g1 SP