Mobilidade urbana nas metrópoles precisa ir além da eletrificação da frota

30/06/2026

Fonte:O Estado de São Paulo

Para especialistas, transição para transporte sustentável exige planejamento, integração de modais e infraestrutura

Mobilidade urbana

A eletrificação dos veículos não é a única solução para os problemas de mobilidade das grandes cidades do País. A conclusão é do diretor executivo da FGV Transporte, Marcus Quintella, e de Larissa Amorim, sócia da Garin Partners, no painel "O Futuro da Mobilidade: Energia, Software e Sustentabilidade", no Energy Summit, no Rio de Janeiro.

No painel dedicado à mobilidade, o diagnóstico foi unânime: a urgência climática exige respostas rápidas, mas soluções simplistas ou puramente tecnológicas não darão conta da complexidade geográfica e social das cidades. A transição, segundo os especialistas, demanda planejamento integrado, respeito às assimetrias regionais e um arcabouço regulatório robusto.

Para Marcus Quintella, a discussão precisa começar pelo enfrentamento dos gargalos crônicos que sufocam os centros urbanos. De acordo com o diretor da FGV, o "custo social da ineficiência atual é insustentável".

"A perda de tempo é muito grande. Acidentes. Tudo isso precisa ser minimizado. Cidades enfrentam problemas básicos: falta de integração física e tarifária. A pressão pela descarbonização é cada vez maior, mas uma transição para uma mobilidade mais sustentável exige uma série de demandas.

tecnologia evolui de forma mais rápida do que nossa infraestrutura", disse Quintella.

O diretor da FGV enfatizou que o avanço veloz de softwares de gestão de tráfego, veículos autônomos ou novos modais de propulsão perde eficácia se não houver infraestrutura e conectividade dos sistemas de transporte coletivo.

VISÃO MAIS AMPLA . Larissa

Amorim, sócia da Garin Partners, rechaçou a ideia de que a eletrificação total da frota automobilística resolveria os problemas ambientais e operacionais das metrópoles. Larissa propôs uma visão mais ampla sobre o conceito de sustentabilidade aplicada ao setor público e privado.

"Quando a gente fala em sustentabilidade, temos de falar em três pilares. Se todos os veículos fossem elétricos não resolveríamos todos os problemas de transporte. Acesso, volume, material, resíduo. Teríamos menos emissão, mas a sustentabilidade vai além disso", diz ela. Segundo a especialista, é preciso otimizar e ter mais eficiência no trabalho. A solução é a multimodalidade. "É o transporte chegar na porta de cada um. Os veículos elétricos vêm com um papel importante, mas não são a única solução", disse.

Segundo a especialista, os gargalos de tráfego, a destinação dos resíduos das baterias e o desafio logístico exigem um redesenho de rede que combine ciclovias, ferrovias, hidrovias e transporte sob demanda, garantindo a capilaridade e a inclusão social.

SEGURANÇA JURÍDICA. Luiz

Gustavo Bezerra, sócio da prática de Ambiental, ESG e Mudanças Climáticas do escritório Tauil & Chequer Advogados (associado a Mayer Brown), destacou os recentes avanços no setor regulatório do País.

"Políticas públicas foram estabelecidas recentemente. Temos de ter cuidado para implementá-las. Uma delas é a lei do combustível do futuro. Ela estabelece programa de descarbonização." Ele explica que tem também a lei de comércio de emissões, para precificar a emissão de carbonos. "O setor aéreo está na primeira fase do programa. Além de trazer viabilidade técnica e econômica, traz segurança jurídica", disse ele.

Bezerra argumentou que marcos como o do Combustível do Futuro e o Mercado Regulado de Carbono dão o norte de previsibilidade que o mercado financeiro exige para financiar a transição global, transformando metas climáticas abstratas em ativos precificados e juridicamente protegidos. l

Especialistas defendem políticas estruturantes

Cada vez mais presente nas cidades brasileiras, a mobilidade elétrica avança apesar de esbarrar em alguns obstáculos como custo e uma maior coordenação institucional. A diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP-Brasil), Clarisse Cunha Linke, defende o avanço de políticas públicas estruturantes para acelerar a eletrificação do transporte no País e diminuir disparidades regionais.

Segundo ela, embora já registre progressos no segmento de carros de menor porte, a transição dos modais pesados, como ônibus e caminhões, ainda enfrenta entraves regulatórios e financeiros. "Há um avanço claro nos veículos leves, mas os pesados ainda concentram os principais desafios." O tema tem peso estratégico: o setor de transporte responde por cerca de 50% das emissões relacionadas à energia no País.

Para a executiva, uma agenda consistente de descarbonização passa necessariamente por instrumentos de regulação aliados a incentivos econômicos.

"Poderíamos olhar para uma nova geração do Procompi (Programa de Apoio à Competitividade das Micro e Pequenas Indústrias), com um calendário de descarbonização de todos os veículos acoplados a mecanismos de financiamento para garantir que a demanda siga crescendo", aponta.

De acordo com Clarisse, um ônibus movido a eletricidade chega a ser três vezes mais caro do que um modelo a diesel, o que limita a adoção em larga escala, gerando um efeito circular de baixa demanda desestimulando fabricantes a ampliar a produção e reduzir preços. "Sem escala, não há incentivo para a indústria conseguir tornar o produto acessível."

Além disso, experiências internacionais mostram caminhos possíveis. A diretora citou o caso da Califórnia, nos Estados Unidos, onde a combinação entre regulação e estímulo direto à demanda ajudou a acelerar o mercado, incluindo a criação de vouchers de até US$ 165 mil por veículo. China e algumas nações da América Latina, como Chile ou Colômbia, também aparecem como referências quando se fala em eletromobilidade.

Apesar das dificuldades, o mercado brasileiro mostra sinais de avanço. Mais de 300 ônibus elétricos foram emplacados em maio, alta de 450% em relação a igual período de 2025 e com 90% da produção realizada no País. Mas Clarisse alerta para a forte concentração. Boa parte das entregas ocorre no Sudeste, sobretudo em São Paulo, que tem 86% da frota. l HENRIQUE FAERMAN

 

Autor(a): RAYANDERSON GUERRA