Ônibus sai do centro das decisões e crise do transporte coletivo se aprofunda nas cidades
30/01/2026
Especialistas apontam que sistema perdeu peso político em meio a subsídios instáveis e baixa atratividade
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Os atrasos recorrentes no pagamento de subsídios ao transporte coletivo urbano em diversas cidades brasileiras deixaram de ser um problema administrativo pontual e passaram a funcionar como um sintoma mais profundo de desorganização do setor. Em meio a debates sobre Tarifa Zero, transição energética e renovação de frota, especialistas alertam que o eixo central da política pública segue deslocado: discute-se o tipo de ônibus, mas não se garante por onde ele vai circular, nem como o sistema será financiado de forma previsível.
Para Luiz Carlos Néspoli, superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) , os atrasos nos repasses revelam menos uma crise fiscal e mais uma crise de prioridade política.
"Na medida em que o subsídio está previsto e aprovado no orçamento municipal, não há razão para o não pagamento. O atraso é muito mais resultado do descaso com o transporte público" , afirma.
Financiamento: subsídio é estrutural, não exceção
O economista Antonio Carlos Moraes, professor titular da Faculdade de Economia da PUC-SP, reforça que o subsídio ao transporte coletivo não é um mecanismo excepcional, mas parte do próprio funcionamento do sistema.
"O subsídio ao transporte coletivo é estrutural. Sem ele, o sistema simplesmente não se sustenta" , afirma.
Segundo Moraes, o problema central está na instabilidade e na fragmentação das fontes de custeio.
"O financiamento virou um conjunto de iniciativas desarticuladas, sujeitas a decisões políticas de curto prazo. Isso impede previsibilidade e planejamento."
Néspoli converge ao afirmar que a tarifa, sozinha, não fecha a conta. "Não há receita tarifária suficiente para suportar os custos. As licitações mais recentes já reconhecem isso ao prever subsídios."
Instabilidade corrói planejamento e investimentos
Os efeitos da irregularidade aparecem rapidamente na operação. Néspoli destaca que a insegurança jurídica paralisa decisões de longo prazo.
" O primeiro impacto é a interrupção da renovação da frota. Depois, para fechar a conta, reduz-se a rede, eliminam-se linhas e aumentam-se os intervalos ."
Nesse ponto, entra a leitura política de Claudio de Senna Frederico, vice-presidente da ANTP , que associa a crise financeira à perda de relevância do transporte coletivo na agenda pública.
"Quando não existe um desejo popular claro e específico em relação ao transporte coletivo, a chamada vontade política não se manifesta."
Segundo Frederico, sem pressão social perceptível, o setor deixa de ser prioridade orçamentária.
"Investimentos e subsídios passam a perder espaço nos orçamentos públicos, tornando os recursos insuficientes até para manter um serviço minimamente aceitável."
Tecnologia avança, mas sistema segue pouco atrativo
A discussão sobre transição energética também entra nesse contexto. Para Richele Cabral, diretora do SEMOVE , que representa os sindicatos e as empresas de ônibus em todo o estado do Rio de Janeiro, o foco excessivo na tecnologia tem ocultado um problema mais básico: a atratividade do serviço.
"Trocar a tecnologia isoladamente não resolve. Não adianta ter ônibus elétrico se o sistema não atrair passageiro" , afirma.
Segundo ela, o principal fator de decisão do usuário continua sendo o tempo de viagem.
"Estamos discutindo ônibus de última geração que continuam parados no trânsito. Isso não melhora a experiência do passageiro."
Moraes complementa, sob o ponto de vista econômico:
"Sem passageiro, não há escala. E sem escala, o custo por usuário aumenta, pressionando ainda mais o subsídio."
Marco Legal: necessário, mas longe de resolver sozinho
A discussão sobre o Marco Legal do Transporte Coletivo aparece como um ponto de apoio importante, mas insuficiente se não houver mudança de postura do poder público. Para Néspoli, o marco pode organizar regras, responsabilidades e fontes, mas não se impõe automaticamente.
"Leis não se implantam por gravidade. A própria Lei de Mobilidade Urbana já prevê prioridade ao transporte coletivo, mas a prática mostra outra realidade."
Frederico avalia que o Marco Legal pode funcionar como uma espécie de rede de proteção institucional, mas não cria, por si só, um sistema atrativo.
"Ele pode ajudar a estruturar o setor, mas não resolve a ausência de prioridade política nem cria demanda onde ela já foi perdida."
Na visão de Moraes, o marco só terá efeito se vier acompanhado de fontes estáveis de financiamento.
"Sem recursos vinculados e previsíveis, o Marco Legal corre o risco de virar mais uma boa intenção no papel."
Tarifa Zero: alerta para efeitos colaterais
No debate sobre Tarifa Zero, as avaliações convergem no cuidado. Néspoli alerta que a gratuidade amplia a demanda e exige aumento imediato da oferta.
"Se não houver fonte segura e permanente, a qualidade cai rapidamente."
Frederico vê a gratuidade como um sinal de fragilidade política do sistema.
"A Tarifa Zero pode acabar sendo a última trincheira, quando o transporte coletivo só desperta interesse por ser gratuito."
Moraes reforça o alerta do ponto de vista fiscal:
"Gratuidade sem fonte estável apenas desloca o problema no orçamento público. O custo não desaparece."
Um sistema que perdeu centralidade
A partir de ângulos distintos - técnico, econômico, político e operacional - os especialistas descrevem o mesmo quadro: uma crise profunda do transporte coletivo, marcada por instabilidade financeira, ausência de prioridade viária e perda de atratividade.
No conjunto, as análises revelam um transporte coletivo que perdeu centralidade nas decisões públicas. Esse esvaziamento é facilitado por um passageiro que, cansado de esperar por soluções estruturais, já encontrou alternativas individuais para se deslocar.
Com menos usuários, o transporte coletivo perde peso político; com menos peso político, perde investimentos e atenção. O resultado é um ciclo de descaso que se retroalimenta - e que empurra o ônibus, cada vez mais, para fora do centro das decisões estratégicas sobre a cidade.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes