Setor de biodiesel critica governo por incentivo a diesel fóssil importado e quer aumento de mistura

23/04/2026

Fonte: Folha Online - SP

As duas maiores associações que representam o setor de biocombustíveis intensificaram a pressão sobre o governo federal nas últimas semanas, com críticas à concessão de subsídios para importação de diesel fóssil , enquanto reluta em cumprir o índice de mistura de biodiesel produzido no Brasil.

Setor de biodiesel sinaliza otimismo para aumento da mistura no diesel

No pleito encaminhado na semana passada aos ministérios da Fazenda, Casa Civil, Desenvolvimento e Planejamento, a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de ÓleosVegetais) e a Aprobio (Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil) argumentam que o biodiesel é, atualmente, mais barato do que o seu equivalente fóssil e importado. O litro do combustível de origem vegetal estava orçado em R$ 5,10, ante R$ 6,20 do diesel fóssil, na cotação até o início deste mês.

A subvenção ao diesel trazido de fora do país foi uma das medidas tomadas pelo governo Lula (PT) para tentar evitar que a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã aumente o preço do combustível no país -o que pode impactar negativamente a popularidade do presidente às vésperas da eleição. Cerca de 25% do diesel consumido no Brasil é importado.

Segundo as associações, há falta de isonomia no tratamento de política pública dado ao biodiesel comparativamente ao diesel fóssil .

À frente da Aliança Biodiesel , a Abiove e a Aprobio lembram que a reforma tributária estabelece expressamente que é preciso manter diferencial competitivo em favor dos biocombustíveis em relação aos combustíveis fósseis.

Além disso, em momentos de mercado nos quais o preço do biodiesel se encontra acima do preço do diesel A (fóssil), nunca se cogitou em utilizar mecanismo de subvenção visando garantir diferencial competitivo , afirmam, em ofício enviado ao governo ao qual a Folha teve acesso.

Na avaliação das associações, o aumento da mistura do biodiesel no produto fóssil seria a melhor saída para controlar o preço. A reivindicação é que o país avance para a mistura obrigatória de 16% de biodiesel, o chamado B16. Hoje o percentual está em 15%.

Essa mudança é definida na lei do Combustível do Futuro, que estabeleceu um cronograma progressivo de aumento ano a ano. Estava previsto que o Brasil passaria de B15 para B16 até o fim de março, o que não ocorreu, por adiamento do conselho.

Por trás da resistência do governo estaria o fato de que, em determinados momentos, o biodiesel fica mais caro que o diesel fóssil, em razão da volatilidade dos preços da soja, principal matéria-prima do biodiesel. Logo, aumentar sua participação na mistura obrigatória pode elevar o custo final ao consumidor no longo prazo, pressionando a inflação .

No lugar de ampliar o uso do biodiesel, os ministérios de Minas e Energia, da Fazenda e do Orçamento decidiram, primeiro, isentar o combustível fóssil de PIS e Cofins (o que também incluiu biodiesel) e, depois, anunciar a subvenção ao fóssil, que chegou, em abril, a R$ 1,52 por litro (para o diesel importado).

Nossas entidades não estão vindo a V.Sas. solicitar subvenção econômica ao biodiesel. Em nosso entendimento, o mecanismo correto de estímulo ao uso do biodiesel, em substituição ao diesel fóssil, já existe na política pública brasileira: trata-se de cumprir as metas de adição obrigatória. Neste caso, a mistura já deveria estar em 16% (B16) , dizem a Abiove e Aprobio.

Entidades do agronegócio reclamam que o governo optou por ajudar empresas internacionais -sobretudo argentinas, que devem ser as produtoras mais beneficiadas com a medida- em vez de fortalecer a indústria nacional de combustíveis sustentáveis, mercado do qual o Brasil é um dos principais atores no mundo.

Representantes do setor calculam que isso poderia resolver um dos problemas da atual indústria, o alto grau de ociosidade da produção, em torno de 40% de suas fábricas.

Segundo cálculos do agronegócio, apenas com essas fábricas que hoje estão prontas, mas não estão em atividade, seria possível produzir de 4 bilhões a 5 bilhões de litros de biodiesel. Hoje o país importa cerca de 17 bilhões de litros de diesel fóssil por ano.

Com esse incremento na produção, ainda segundo essas entidades, seria possível aumentar a mistura para até 18%. O cenário atual, porém, dizem os produtores, está gerando competitividade não isonômica em relação ao biodiesel e às custas do contribuinte brasileiro .

É inegável que um aumento no teor de adição obrigatória de biodiesel no diesel geraria dois efeitos que a subvenção econômica busca entregar: redução de preços do diesel ao consumidor e menor dependência de importação de diesel , dizem as associações.

Produtores também defendem o aumento na mistura do etanol na gasolina, hoje em 30%. Os cálculos dão conta de que uma elevação para 32% diminuiria em 5% o combustível que é importado.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, prometeu que, no caso da gasolina, esse aumento será dado ainda no primeiro semestre deste ano, mas novamente a medida esbarra na necessidade de aprovação pelo CNPE (Conselho Nacional de Política Energética).

Integrantes da pasta afirmam que, para que essa decisão seja tomada, é necessária a conclusão de um estudo de viabilidade, que ainda não está pronto, mas em fase final de elaboração. Nesse estudo também são ouvidos produtores de motores, sobre a eficiência energética com os níveis mais altos de fração vegetal.

Questionado sobre o pedido de aumento da mistura do biodiesel, o MDIC declarou que, desde 2023, o governo brasileiro vem elevando progressivamente a mistura de bio no diesel, que passou de 10% para 15% nesses três anos, em linha com o Programa Combustível do Futuro e de demais políticas federais de descarbonização.

Sobre o cronograma de novas elevações, a pasta sugeriu procurar o Ministério de Minas e Energia, que não respondeu ao pedido da reportagem. A Casa Civil e a Fazenda também não se pronunciaram.

biodiesel é feito a partir de matérias-primas orgânicas. Seus principais insumos são óleos de soja, palma, girassol, canola e algodão. O setor estima que o aumento de um ponto percentual na mistura do diesel geraria um acréscimo de cerca de 1 bilhão de litros adicionais de biodiesel por ano, movimentando um mercado estimado entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões anuais.

 

Autor(a): André Borges João Gabriel