SPTrans volta a suspender contrato de estudos de três corredores de ônibus em São Paulo em meio a atrasos nas obras e velocidade dos coletivos de apenas 12 km/h no pico
25/09/2026
Decisão publicada nesta sexta-feira (25) atinge os corredores Miguel Yunes, Sabará e Norte-Sul. Capital, com quase 12 milhões de habitantes e aproximadamente 7 milhões de passageiros de ônibus por dia útil, acumula prorrogações de obras que poderiam melhorar a velocidade do transporte coletivo. Confira tabela com os principais projetos.
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A nova publicação ocorre justamente quando a velocidade média dos ônibus chega a apenas 12,37 km/h às 17h das quartas-feiras, um dos momentos mais críticos do trânsito paulistano. O problema atinge uma cidade com população estimada pelo IBGE em 11,9 milhões de habitantes, uma frota municipal superior a 13 mil ônibus e cerca de 7 milhões de embarques diários em dias úteis. Embora as obras de alguns corredores estejam avançando, sucessivas alterações de cronograma prolongam a espera dos passageiros por infraestrutura que dê prioridade ao transporte coletivo.
Nova suspensão atinge contrato firmado em 2023 e que já havia passado por outras interrupções
O contrato atingido pela decisão foi firmado pela SPTrans com o Consórcio Ambiental EAB, responsável pela prestação de serviços especializados para o desenvolvimento dos estudos e do licenciamento ambiental dos corredores Miguel Yunes, Sabará e Norte-Sul.
O documento divulgado nesta sexta-feira é um termo de suspensão assinado em 16 de setembro de 2026.
Trata-se do contrato nº 2022/0639-01-00, cujo novo registro administrativo é o de número 2022/0639-01-07. A publicação aparece na página 509 do Diário Oficial.
O histórico contratual mostra que as dificuldades não começaram agora.
O contrato original foi celebrado em 29 de março de 2023. Em março de 2025, um aditamento prorrogou o prazo de execução dos estudos até 28 de março de 2026 e estabeleceu vigência contratual até 28 de setembro de 2026, posteriormente afetada pelas suspensões.
Os registros públicos da SPTrans também apontam suspensões formalizadas em fevereiro e abril de 2026.
A suspensão de abril foi assinada no dia 16 daquele mês e estabeleceu um novo período contratual entre 26 de abril e 23 de agosto de 2026.
A medida divulgada agora, portanto, integra uma sequência de alterações na execução dos serviços.
Existe uma distinção importante para compreender a decisão.
O documento publicado nesta sexta-feira atinge especificamente o contrato de estudos e licenciamento ambiental. Isso não equivale a uma ordem geral de paralisação das obras dos três corredores, que possuem diferentes situações administrativas e contratuais.
O extrato da nova suspensão também não esclarece sua motivação ou estabelece uma data para a retomada dos serviços.
Essas informações são necessárias para avaliar os efeitos da decisão sobre a elaboração dos projetos, a obtenção das licenças ambientais e os cronogramas dos empreendimentos.
São Paulo tem quase 12 milhões de habitantes, 13,6 mil ônibus e somente 135 quilômetros de corredores
A dimensão do sistema de transporte paulistano ajuda a explicar a importância de investimentos em infraestrutura que permitam aos ônibus circular com maior velocidade e regularidade.
Segundo a estimativa do IBGE para 2026, a capital possui 11.911.337 habitantes.
Os números oficiais da SPTrans, referentes a agosto de 2026, apresentam um sistema com 1.336 linhas, uma frota de 13.678 ônibus e média de 6,9 milhões de passageiros transportados por dia útil.
Apesar dessa dimensão, a infraestrutura especificamente classificada como corredor ainda representa uma parcela relativamente pequena da rede viária percorrida pelos coletivos.
De acordo com os dados disponibilizados pela própria SPTrans, a cidade possui 135,3 quilômetros de corredores e outros 590,4 quilômetros de faixas exclusivas.
É importante diferenciar essas duas estruturas.
As faixas exclusivas, geralmente implantadas do lado direito das vias, oferecem prioridade aos ônibus, mas podem apresentar interferências de conversões, acessos a imóveis, operações de carga e descarga e cruzamentos.
Já os corredores estruturados podem contar com maior segregação física, estações específicas, embarque em nível, pavimento dimensionado para veículos pesados e sistemas de controle operacional.
Também podem permitir ultrapassagens nas estações, dependendo do projeto.
Na prática, essas características influenciam a velocidade dos coletivos, a regularidade das viagens e a capacidade de transportar passageiros.
O Metrô e os trens metropolitanos desempenham papel fundamental nos deslocamentos de grande capacidade, mas sua cobertura territorial não alcança todos os bairros atendidos pelas linhas municipais de ônibus.
Nesse cenário, os corredores podem desempenhar uma função complementar à rede sobre trilhos, principalmente nas ligações entre bairros, terminais e estações ferroviárias.
Ônibus rodam apenas a 12,37 km/h no horário de pico
A importância da prioridade viária fica ainda mais evidente diante dos números de velocidade dos ônibus.
Os coletivos chegam a registrar velocidade média de somente 12,37 km/h às 17h das quartas-feiras.
O indicador se refere a esse horário específico, considerado um dos mais críticos da semana, e não à velocidade média de todas as viagens realizadas na cidade.
No pico da manhã, a velocidade média geral dos ônibus passou de 16 km/h, em 2019, para 15 km/h em 2026.
Nos corredores, a média nesse mesmo período passou de 22 km/h para 20 km/h.
No sentido contrário, durante o pico da tarde, a média geral passou de 15 km/h para 16 km/h. Nos corredores, os dados indicam 20 km/h em 2019 e 19 km/h em 2026.
Os resultados mostram comportamentos diferentes conforme o sentido e o horário, mas também evidenciam a diferença de desempenho entre os ônibus que contam com prioridade viária e os demais.
A própria SPTrans, em seu relatório referente a 2024, também já havia apresentado resultados que demonstram essa diferença.
No pico da manhã, os ônibus monitorados nos corredores alcançaram média de 20 km/h, diante de 16 km/h na média geral do sistema.
À tarde, os resultados foram de 19 km/h nos corredores e 15 km/h no sistema como um todo.
O efeito sobre o passageiro é direto: com viagens mais rápidas e regulares, os mesmos veículos podem realizar mais percursos ao longo do dia, contribuindo para a frequência do atendimento nos pontos.
Atrasos atingem diferentes corredores e etapas de implantação
Somente neste mês de setembro foram publicadas decisões relacionadas aos corredores Itapecerica, Amador Bueno da Veiga e Imirim, além de serviços complementares do BRT Radial Leste.
Os casos apresentam situações diferentes.
Há empreendimentos cujas obras estão em andamento, mas receberam prorrogações. Outros ainda dependem de projetos, licenciamento, desapropriações ou contratações complementares.
Também existem contratos de obras e de estudos que passaram por suspensões.
Na zona sul, por exemplo, o Corredor Itapecerica deveria ter sua requalificação concluída originalmente em outubro de 2024. A previsão atual passou para fevereiro de 2027.
Na zona leste, o Corredor Amador Bueno da Veiga recebeu mais sete meses para execução das obras, com prazo contratual até março de 2027.
Os principais projetos e suas respectivas situações podem ser conferidos na tabela a seguir.
Confira a situação dos principais corredores de ônibus de São Paulo
Fontes: Diário Oficial da Cidade de São Paulo, SPTrans, Prefeitura de São Paulo e levantamentos do Diário do Transporte publicados entre agosto e setembro de 2026. A tabela reúne obras, projetos e contratos em diferentes estágios; as situações não representam paralisação de todos os empreendimentos.
Itapecerica e Amador Bueno: obras seguem para 2027 após sucessivas mudanças de prazo
Dois dos exemplos mais recentes de alteração de cronogramas envolvem corredores já existentes que passam por requalificação.
No Corredor Itapecerica, na zona sul, a intervenção abrange aproximadamente 3,5 quilômetros entre os terminais João Dias e Capelinha.
O planejamento original previa dez meses de obras, com conclusão em outubro de 2024.
Depois de sucessivas prorrogações, a Prefeitura estabeleceu 17 de fevereiro de 2027 como nova data contratual para o encerramento das intervenções.
O motivo apresentado nos documentos oficiais é a necessidade de remanejamento e enterramento das redes de energia elétrica e telecomunicações.
Segundo o consórcio responsável pelas obras, essas interferências atingem 74% do cronograma contratado. A fiscalização da SPObras reconheceu os problemas provocados pelas concessionárias responsáveis pelas redes, embora esse percentual específico tenha sido calculado pela contratada.
O empreendimento atende uma região com demanda estimada em aproximadamente 122 mil passageiros por dia.
Já no Corredor Amador Bueno da Veiga, na zona leste, a Prefeitura formalizou nesta semana a extensão de sete meses que havia sido autorizada em agosto.
A nova previsão contratual para a conclusão das intervenções é 17 de março de 2027.
A requalificação contempla aproximadamente cinco quilômetros do corredor, incluindo pavimento, cruzamentos, plataformas, paradas e sistemas de monitoramento.
O contrato original foi firmado em dezembro de 2023, por aproximadamente R$ 62 milhões, e passou por reajustes e alterações posteriores.
A região atendida pelo empreendimento reúne mais de 106 mil passageiros diariamente, segundo informações municipais divulgadas anteriormente.
Imirim acumula aditamentos e Norte-Sul também apresenta histórico de suspensões
Na zona norte, o Corredor Imirim recebeu o oitavo termo de aditamento de seu contrato de obras, publicado em setembro.
A intervenção abrange 4,6 quilômetros da Avenida Imirim, entre a Avenida Deputado Emílio Carlos e a Alameda Afonso Schmidt.
O empreendimento contempla a modernização de 17 paradas e beneficia uma região com demanda estimada em aproximadamente 112 mil passageiros por dia.
O contrato original foi celebrado em 2023, com prazo de execução de 16 meses.
Desde então, a Prefeitura publicou diferentes alterações contratuais envolvendo prazos, serviços e valores. O contrato de assistência técnica e apoio à fiscalização foi prorrogado até 31 de outubro de 2026.
As obras permanecem em andamento.
No Corredor Norte-Sul, a situação envolve também contratos de grande porte para construção.
O lote possui aproximadamente 4,6 quilômetros e abrange parte do eixo formado pelas avenidas 23 de Maio, Professor Ascendino Reis, Rubem Berta e Moreira Guimarães.
Os contratos dos dois lotes principais do Trecho 2 somam aproximadamente R$ 719 milhões.
O novo ato publicado nesta sexta-feira envolve especificamente os estudos e o licenciamento ambiental e deve ser distinguido das suspensões dos contratos de execução e supervisão das obras.
Radial Leste e Aricanduva apresentam avanço das obras, enquanto outros projetos ainda dependem de etapas administrativas
O cenário dos corredores paulistanos também inclui obras que começaram ou avançaram ao longo de 2026.
Um dos principais exemplos é o BRT Aricanduva.
Com 13,6 quilômetros de extensão, o empreendimento deverá conectar a região da Radial Leste ao Terminal São Mateus.
A Prefeitura informa que o projeto tem potencial para atender aproximadamente 290 mil passageiros por dia, com estações modernas, pagamento antecipado da tarifa e outras estruturas de apoio à operação.
As obras começaram em agosto deste ano. No entanto, os procedimentos de desapropriação necessários à implantação ainda estão em andamento.
O investimento contratual divulgado pela administração municipal é de aproximadamente R$ 646,8 milhões.
Outra intervenção é o BRT Radial Leste I, que deverá estabelecer uma ligação de aproximadamente 9,8 quilômetros entre a região central e a Penha.
As obras estão divididas em três lotes. Em agosto, a Prefeitura formalizou a ordem de início dos serviços do terceiro lote, estabelecendo prazo de 18 meses.
Ao mesmo tempo, contratos técnicos complementares ligados ao sistema de monitoramento e controle operacional receberam prorrogações.
O prolongamento desses serviços não deve ser confundido com uma nova suspensão ou prorrogação de todas as obras civis do BRT.
Já o BRT Radial Leste II, que deverá avançar da Penha em direção a Itaquera, permanece na etapa de projetos, com prazo técnico estabelecido até junho de 2027.
Prefeitura cita investimentos em andamento e ampliação das faixas exclusivas
Procuradas pela Folha de S.Paulo para a reportagem sobre a velocidade dos ônibus, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e a SPTrans apresentaram informações sobre os investimentos realizados e os projetos em execução.
Segundo a administração municipal, foram implantados 54 quilômetros de faixas exclusivas e entregue um novo trecho do Corredor Itaquera.
A Prefeitura também destacou as obras dos BRTs Aricanduva e Radial Leste e as intervenções nos corredores Celso Garcia, Itaquera, Santo Amaro, Amador Bueno da Veiga, Interlagos e Estrada de Itapecerica.
A administração afirma que essas intervenções deverão contribuir para o aumento da velocidade média dos ônibus após a conclusão dos trabalhos.
Os números de demanda e de velocidade mostram a dimensão dos efeitos que a infraestrutura de prioridade pode produzir.
Para os passageiros, o acompanhamento dos próximos atos administrativos será importante para esclarecer quando os serviços ambientais suspensos serão retomados, quais cronogramas permanecem válidos e quando os benefícios esperados de cada corredor poderão ser efetivamente incorporados ao sistema municipal.
Autor(a): ADAMO BAZANI