Olimpio de Melo Alvares Junior

19/05/2014

IMPACTOS DA OPERAÇÃO DESNECESSÁRIA EM MARCHA-LENTA

Ao invés de desligar o motor em garagens, pátios, terminais de passageiros e paradas para carga e descarga, motoristas de veículos pesados a diesel têm o péssimo hábito de manter o veículo funcionando em marcha-lenta por longos períodos. Uma, entre as inúmeras referências encontradas na bibliografia, cita que nos Estados Unidos os caminhões médios operam em marcha-lenta em média por cerca de 41 minutos por dia e os mais pesados por 105 minutos (ou 640 h/ano).

No Brasil, supondo que os ônibus urbanos permaneçam ligados nas garagens e em terminais por cerca de 60 minutos por dia (365 h/ano), e sendo o consumo médio em marcha-lenta dos veículos novos e regulados de cerca de 3,1 l/h1, estima-se um desperdício de, no mínimo, 1131,5 l/ano de óleo diesel (maio/2014, R$2,30/l), o equivalente a R$ 2602,45/ano por ônibus. Uma frota de cem ônibus joga fora com essa prática, mais de R$ 260.245,00/ano – o valor de um ônibus novo. Se, por exemplo, a frota da Cidade de São Paulo, com quinze mil ônibus urbanos, praticar a marcha-lenta de forma não controlada, queimará cerca de 17 milhões de litros de diesel - o equivalente ao valor de 150 (cento e cincoenta) ônibus novos a cada ano.

Além do gigantesco desperdício de combustível, os estudos da U.S. Environmental Protection Agency – EPA1 indicam que um único veículo a diesel pesado operando em marcha-lenta emite cerca de 25 g/h de monóxido de carbono (CO), 4 g/h de hidrocarbonetos (HC), 144 g/h de óxidos de nitrogênio (NOx), 3 g/h de material particulado (MP) e 8.224 g/h de dióxido de carbono (CO2) - esse último sendo o maior responsável pelo chamado “Efeito Estufa”. Isso significa que uma frota de cem ônibus que pratique o uso racional da marcha-lenta, além de reduzir a poluição tóxica local de modo relevante, diminuirá as emissões de gases do efeito estufa em 0,6 milhões de toneladas por ano.

As montadoras de veículos sugerem globalmente um tempo de aquecimento dos motores a diesel de menos de três minutos. Na verdade, nos dias mais frios no Brasil, são necessários apenas trinta segundos em marcha-lenta para que o óleo do motor circule. A operação prolongada em marcha-lenta não aquece devidamente o motor e os resíduos de combustível não queimado causam o dobro de desgaste nos componentes internos do motor, comparado a outros regimes de funcionamento. O acúmulo de água na descarga também ocorre nessa condição de operação a baixa temperatura dos gases de exaustão, reduzindo a vida útil do sistema de escapamento. Em suma, a movimentação do veículo é a melhor forma de aquecer o motor e seus componentes, reduzir custos de manutenção e prolongar a vida do motor e componentes.

Mas não são apenas os veículos pesados a diesel que operam em marcha-lenta de modo não controlado. Veículos leves de passageiros também incidem nessa prática desnecessária, trazendo prejuízos adicionais ao meio ambiente.

Segundo o Natural Resources Canada, desligar e ligar o veículo sucessivamente, ao contrário do que se imagina, não prejudica o motor de partida e não consome mais combustível do que operar o veículo em marcha-lenta por mais de 10 segundos. Desse modo, algumas montadoras estão incorporando dispositivos eletrônicos (start-stop systems), que desligam e ligam automaticamente o motor durante o estacionamento e nos congestionamentos, de modo a reduzir o consumo, prolongar a vida do motor e seus periféricos e proteger o meio ambiente. Estima-se em operação urbana com esse sistema - que se paga em cerca de dois anos de uso normal de um veículo de passeio - uma redução do consumo e das emissões de gases do efeito estufa da ordem de até 15%.

Desligar o motor sempre que possível é a melhor forma de conduzir um veículo com eficiência, economia e respeito à saúde pública e ao meio ambiente. Nesse sentido, a educação dos motoristas é fundamental, mas os regulamentos e normas operacionais de frotas públicas e privadas, e até mesmo a lei, também podem ajudar. Muitas comunidades em países desenvolvidos têm regulamentos para o controle dessa prática danosa à economia e ao meio ambiente, limitando o funcionamento prolongado de veículos em marcha-lenta, com pesadas multas aos infratores. E para nossa sorte, até mesmo no Brasil, em certas áreas ambientalmente sensíveis, como o Parque das Cataratas do Iguaçu, por exemplo, a elogiável prática de exigir a parada do motor quando os veículos estão estacionados aguardando os passageiros ou a carga/descarga, já está sendo observada com o merecido rigor.

Tudo isso posto, sugere-se que o Poder Público, em especial os agentes responsáveis pela gestão do Meio Ambiente, Saúde Pública e Transportes, atuem decisivamente em treinamentos dos operadores de transportes e na normatização desse tema, a exemplo do que já é feito em outros países com sucesso.

¹ Estudo de emissões em marcha-lenta conduzido pela U.S. Environmental Protection Agency (estudo EPA420-R-02-025 - Outubro 2002) indica que um veículo pesado a diesel típico dos anos 1980 a 2001, emite 144 g/h de NOx e 8.224 g/h de CO2 e consome 3,1 l/h de diesel.

Olimpio de Melo Alvares Junior
Olimpio Alvares é engenheiro mecânico, ex-gerente da Cetesb na área de emissões veiculares e consultor autônomo na área de engenharia ambiental e transporte sustentável na L`Avis Eco-Service.