"Eletrificação não é a bala de prata da descarbonização"
19/11/2025
Executiva diz que veículos elétricos são só uma das opções para reduzir emissões do transporte público

Especialista defende a descentralização dos meios de locomoção e acredita que o poder público deve estar à frente da discussão
A paulistana Ana Nassar é uma autoridade em sustentabilidade. Formada em relações internacionais com mestrado em ciências políticas, ela passou a se interessar pelo tema já no ambiente acadêmico e se aprofundou na discussão de como o transporte causa impacto direto nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) e afeta a vida nas cidades.
Em sua rica trajetória profissional, Nassar atuou em Brasília (DF) na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência de 2009 a 2012 e, atualmente, é diretora de programas do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP).
Ela defende arduamente a descentralização da mobilidade urbana, com a forte adoção do transporte público. Aprova a eletrificação, mas não como salvação de todos os problemas da transição energética veicular, que precisa da participação do poder público, conforme revelou nessa entrevista ao Mobilidade Estadão .
O que esperar de resultados efetivos da COP-30 sobre a descarbonização do transporte?
Espera-se uma centralidade nas discussões sobre a colaboração do setor do transporte para além da mitigação das emissões dos gases de efeito estufa (GEE). É preciso avançar em questões que geram impacto na população, como os projetos e os incentivos que as cidades criam para melhorar e tornar viável a mobilidade urbana. Isso passa também por uma pressão da sociedade civil sobre o poder público, que está no eixo central da transição energética.
A prévia do COP-30, ocorrida no Rio de Janeiro, abordou essas questões?
Os painéis promovidos pela C40 Cities, as grandes cidades comprometidas com as causas climáticas, exploraram os temas que envolvem aspectos sociais e ambientais. Mostraram, por exemplo, como o transporte público apresenta impacto direto nas emissões e sua importância como agente de redução dos gases na atmosfera e aliviar os congestionamentos.
Descarbonizar o transporte público é uma alavanca relevante nesse sentido e um grande desafio para a questão climática.
De forma geral, as cidades estão engajadas no movimento de incentivar o uso do transporte público?
O transporte está avançando na agenda das cidades, que vêm desenvolvendo planos de mobilidade urbana. A Coalização dos Transportes, da qual o ITDP faz parte, apontou estratégias com um olhar em diferentes partes dos municípios, considerando fatores como padrões de deslocamento e situação política. Em todos os casos uma coisa é certa: a urgência climática exige rapidez nas atitudes.
As mudanças passam por conscientização individual dos usuários?
Não sei se passa por conscientização individual. O foco é pressionar o poder público, que deve adotar mecanismos para os transportes coletivo e ativo (bicicleta e caminhada, por exemplo), se tornarem escolhas naturais, seguras e previsíveis. Eu poderia dizer: "Olha, vamos tentar caminhar mais, ter uma vivência maior na cidade", mas, ainda assim, o poder público precisa estar à frente das mudanças.
Sendo o transporte público um eixo central da discussão, o ônibus elétrico seria o ideal para os centros urbanos?
É um veículo importante, porém, bom dizer que a eletrificação não é uma bala de prata para resolver a mobilidade urbana. Defendemos uma estratégia integrada, observando as tecnologias disponíveis a fim de alcançar as metas climáticas na transição energética. Nessa história, o vilão é o automóvel, responsável por 74% das emissões de dióxido de carbono (CO 2 ). Isso reforça a necessidade de descentralizar a maneira como nos movimentamos e incentivar o transporte público.
Vivemos uma fase da invasão de marcas chinesas de carros eletrificados. Substituir o veículo com motor a combustão pela propulsão elétrica é uma política adequada?
O carro elétrico é tentador porque não polui, mas imagine todo mundo usando esse tipo de veículo. Os congestionamentos seriam infernais, as pessoas perderiam muito tempo que poderia ser aproveitado com educação, lazer e no próprio trabalho. Além disso, haveria impacto até mesmo no Produto Interno Bruto (PIB) do País. Se temos a possibilidade de adotar a eletrificação veicular, que seja prioritariamente no transporte público. Segundo o relatório da Coalização, 45% do potencial de redução de emissões urbanas no Brasil até 2050 vem dos transportes.
Muitas cidades brasileiras estão migrando para os ônibus elétricos...
É inegável o reflexo positivo na vida dos passageiros, que viajam com mais conforto e sem barulho, e do motorista, que se desgasta muito menos.
Também existem benefícios ambientais, sociais e econômicos. Mesmo assim, há um dado preocupante: as mulheres de baixa renda estão trocando o transporte público pela motocicleta ou pelo serviço de motocicleta por aplicativo. É preciso encontrar meios para paralisar essa fuga de usuários.
Não é difícil convencer o dono de um automóvel a substituí-lo pela viagem de ônibus urbano?
Segundo estudos da Associação Nacional de Transporte Públicos (ANTP), em cidades com até 60 mil habitantes, 39% das pessoas se locomovem a pé. Os municípios precisam criar um ambiente adequado para isso, como calçadas de boa qualidade, estrutura de ciclovias e de iluminação, para que elas se sintam seguras em caminhar à noite.
O estudo da Coalização aponta que os 260 milhões de toneladas de CO 2 emitidos pelo setor do transporte em 2023 podem saltar para 424 milhões em 2050 se nada for feito ou a 170 milhões com as alavancas de descarbonização. É possível alcançar essa redução?
As mudanças não são feitas da noite para o dia mas, repito, o poder público deve atuar diretamente e chancelar as decisões.
Ele precisa olhar para as cidades e avaliar quais necessitam de mais investimentos para promover, em cada uma delas, o trabalho de descarbonização. l "É preciso avançar em questões que geram impacto na população, como os projetos e os incentivos que as cidades criam para melhorar e tornar viável a mobilidade urbana" "O vilão é o automóvel, responsável por 74% das emissões de CO 2 . Isso reforça a necessidade de descentralizar a forma como nos movimentamos nas cidades e incentivar o transporte público"
Autor(a): MÁRIO SÉRGIO VENDITTI