Em carta, NTU alerta para ruptura do sistema de transporte público e cobra financiamento coletivo (Mobilidade urbana)

14/08/2026

Fonte: Correio Braziliense

Em carta, NTU alerta para ruptura do sistema de transporte público e cobra financiamento coletivo (Mobilidade urbana)

Apresentado no encerramento da LatiBus 2026, o documento destaca que a sustentabilidade do sistema depende do fim da dependência exclusiva da tarifa paga pelo passageiro

Todos os meses, mais de 1,1 bilhão de viagens de transporte público movimentam o país através de uma infraestrutura composta por 107 mil ônibus e mais de 5,1 mil carros ferroviários espalhados por 2.962 municípios, uma estrutura que, segundo a Associação Nacional dos Transportes Públicos (NTU), está perto do colapso.

O alerta e o diagnóstico da mobilidade urbana no país foi apresentado durante três dias no Seminário Nacional NTU 2026, realizado durante a feira LatiBus no São Paulo Expo. No encerramento, o diretor -presidente da NTUFrancisco Christovam, leu a Carta Brasil - Transporte para Todos.

O documento ressalta que conseguir chegar ao destino - seja para trabalhar, estudar, ir a uma consulta médica, cuidar da família ou buscar uma oportunidade - é a condição prévia para todas as outras possibilidades de desenvolvimento individual e social. O transporte público coletivo, portanto, não é apenas um serviço rodoviário ou metroferroviário, mas uma infraestrutura social e econômica essencial que conecta territórios e gera inclusão.

Apesar de sua relevância estratégica, a carta aponta para um "ponto de ruptura": a contradição histórica de tratar o financiamento do transporte público como uma conta que deve ser paga, quase em sua totalidade, por quem passa pela catraca.

Esse modelo tradicional criou uma espiral negativa de difícil solução. "À medida que o sistema exige mais arrecadação para cobrir custos crescentes, aumenta-se a pressão sobre o preço da passagem. Com tarifas mais pesadas no bolso do cidadão, a consequência direta é a fuga de passageiros do transporte coletivo. Sem esses usuários, a arrecadação cai, os recursos para investimentos em frota e melhoria da qualidade escasseiam e, com a queda da oferta e da qualidade, o ciclo recomeça, afastando ainda mais pessoas", citou Christovam.

Paralelamente ao esvaziamento do transporte público, cresce o volume de deslocamentos por meios individuais, o que infla os índices de congestionamento e gera perda de tempo produtivo nas grandes e médias cidades.

O executivo considera que, para a população de menor renda, que não possui alternativas de locomoção, o impacto é devastador. "A impossibilidade de arcar com o custo do deslocamento impede o acesso direto ao mercado de trabalho, à educação e aos serviços de saúde", pontuou.

Ao final, o manifesto reforça que o desafio ultrapassa o setor de transporte. Trata-se de uma pauta central sobre produtividade, inclusão e qualidade de vida, exigindo que a sociedade e o poder público enfrentem a questão do financiamento e garantam a mobilidade sustentável como um direito universal e base para o futuro do Brasil.

Ao fazer um balanço do seminário, Francisco destacou a mudança de postura da organização ao apresentar o programa "Transporte para Todos", superando um diagnóstico recorrente do setor para focar em soluções concretas para o financiamento do custeio da operação. Ele relembrou a provocação de um conselheiro para ressaltar que o evento não poderia continuar sendo apenas "um palco de da onde participavam os mesmos atores, com os mesmos problemas e uma dificuldade enorme de trazer uma proposta de solução".

Com a coleta de contribuições nos painéis - que abordaram desde tecnologia até experiências internacionais de financiamento -, o encontro cumpriu o papel de debater e consolidar sugestões para a construção de um documento final.

Com o encerramento do evento e a sistematização das contribuições recebidas, o foco agora se volta para a articulação institucional e a consolidação de propostas de impacto social.

Entre as alternativas em discussão, ganha força a criação do Vale Transporte Social, financiado por recursos de programas federais já existentes, expandindo o conceito de subsistência. A lógica defendida pelo executivo apoia-se no fato de que o transporte é elemento fundamental para a autonomia e geração de renda da população vulnerável, pois "faz parte da subsistência o deslocamento, o cidadão buscar oportunidades, buscar trabalho, né? Vender um produto que é feito na sua casa e etcétera".

Leia também: Crise: por que passageiros estão abandonando o transporte público?

Por se tratar de um ano eleitoral com perspectiva de grande renovação no Congresso e no Senado, o próximo passo estratégico consiste em dar corpo político à proposta e construir alianças com entidades representativas. As ações diretas envolverão diálogos com a Frente Nacional de Prefeitos, o Fórum Nacional de Secretários e frentes parlamentares para impulsionar a modernização de marcos legais defasados, como a lei do Vale-Transporte. Francisco enfatizou que a viabilização das medidas dependerá fundamentalmente de articulação legislativa e institucional, já que a decisão final sobre o novo modelo de financiamento será política.

*A repórter viajou a convite da NTU