O valor do tempo em SP (Editorial)
15/09/2025
Pesquisa mostra que paulistanos se angustiam com o tempo que perdem no trânsito
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva revelou a percepção dos paulistanos sobre o tempo. E os resultados mostraram o desconforto da população da cidade de São Paulo na sua relação com os ponteiros do relógio, num sinal de insatisfação com a vida na metrópole, com os atrasos recorrentes em tarefas cotidianas, com a perda de compromissos e com os prejuízos na realização de negócios e na produtividade.
Aliás, o título do levantamento, Valorização do tempo em São Paulo: angústias e demandas da população, já é bastante sugestivo da frustração dos moradores da capital paulista.
Segundo o estudo feito em parceria com a Uber, 78% dos entrevistados disseram que o deslocamento é o fator que mais contribui para a sensação de falta de tempo, ficando à frente da demora no transporte público (49%), das filas em serviços (44%) e dos cuidados domésticos (31%). Os 1,5 mil entrevistados deixaram claro como a mobilidade impacta de modo negativo a gestão do tempo: de cada dez paulistanos, sete disseram que o tempo gasto no trânsito atrapalha as atividades importantes, e 76% concordam com a frase "falta tempo no meu dia a dia". Não à toa, 60% dos entrevistados afirmaram preferir uma hora livre a mais por dia a uma renda 10% maior.
É visível a angústia da população nos ônibus, trens e metrôs e também nos carros parados no congestionamento.
E outros indicadores reforçam o problema.
A Pesquisa Origem e Destino, do Metrô, por exemplo, mostrou que os deslocamentos individuais (51,2%) superaram os coletivos (48,8%). Um levantamento da Rede Nossa São Paulo apontou o crescimento do tempo médio de deslocamento no transporte público, que chegou a 2 horas e 47 minutos por dia. E dados da SPTrans constataram a queda da velocidade dos ônibus, mesmo nos corredores e nas faixas exclusivas, com uma média geral de 15 quilômetros por hora. E, para piorar, já há indicativos de que a lentidão no trânsito logo mais voltará aos patamares pré-pandemia de covid.
Os achados do Instituto Locomotiva e todos esses indicadores ilustram a degradação contínua da mobilidade em São Paulo, na contramão do que se espera da maior e mais rica metrópole do País. Por escolhas ou omissões políticas das autoridades públicas, sobretudo as municipais, os paulistanos têm perdido muito tempo para se deslocar, por qualquer modal.
Uma maior qualidade de vida somente será percebida com investimentos em transporte público, a começar por uma rede de ônibus pontual, ágil e confortável, que circule por vias exclusivas, sobretudo corredores, de modo a ganhar a adesão voluntária da população.
Faltam ainda uma malha de transporte sobre trilhos capilarizada, ciclovias eficientes e calçadas seguras.
Nada disso é realidade em São Paulo.
O direito de ir e vir é, assim, um paradoxo: um ato de liberdade ao mesmo tempo em que se está preso no caminho. Na prática, é um martírio, haja vista que chegar a algum lugar, sabe-se lá como e em quanto tempo, implica perda de qualidade de vida. E tamanho sofrimento leva à infelicidade, como bem se vê nas angústias e demandas identificadas pela pesquisa.