Quer transporte público de qualidade? Então aceite perder espaço para o carro

12/01/2026

Fonte: Diário do Transporte

Discurso recorrente ignora que transporte público só melhora com prioridade no viário - exatamente o que desagrada quem não quer abrir mão do seu veículo particular

Há uma frase clássica no repertório do brasileiro que anda de carro e gosta de parecer racional, moderno e preocupado com a cidade:

É uma frase bonita, educada, quase cívica. O problema é que ela sempre vem no tempo verbal mais confortável possível: o futuro indefinido. Um tempo em que nada precisa acontecer de fato.

O detalhe que raramente entra na conversa é simples, técnico e amplamente conhecido por qualquer especialista em mobilidade urbana: transporte público só tem qualidade quando tem prioridade no sistema viário. Sem faixa exclusiva, sem corredor segregado, sem preferência semafórica, sem espaço urbano dedicado, ônibus e trólebus são apenas carros grandes presos no mesmo congestionamento.

E é exatamente aí que a boa vontade acaba.

Porque a prioridade ao transporte público implica, inevitavelmente, menos espaço para o automóvel particular. E isso, curiosamente, incomoda profundamente o mesmo cidadão que exige ônibus rápido, frequente, confortável e pontual.

O discurso muda de tom num passe de mágica. A faixa exclusiva "atrapalha o trânsito". O corredor "estrangula a via". O BRT "não foi bem pensado". O semáforo inteligente "segura demais os carros". Em comum, todas essas críticas têm um ponto central: o desconforto de quem dirige sozinho um veículo de mais de uma tonelada para transportar uma única pessoa.

Cria-se então um raciocínio circular que se retroalimenta, digno de manual de paradoxos urbanos:

É a cobra comendo o próprio rabo - em baixa velocidade e ocupando duas faixas.

No fundo, a discussão raramente é sobre qualidade do transporte público. É sobre manutenção de privilégios travestidos de preocupação coletiva. O carro não é apenas um meio de deslocamento; virou extensão da casa, da identidade e, em muitos casos, do status social. Abrir mão dele não é uma decisão técnica: é quase uma afronta pessoal.

Para o engenheiro e consultor Claudio de Senna Frederico , vice-presidente da ANTP , esse conflito não nasce de falhas do sistema de transporte, mas de uma lógica social mais profunda.

Essa hierarquia simbólica ajuda a explicar por que o transporte público permanece preso à condição de promessa eterna. Sempre precisa melhorar um pouco mais antes de "merecer" novos usuários. Enquanto isso, o carro segue como prioridade absoluta, ocupando ruas, avenidas, orçamentos públicos e o imaginário urbano.

Apoiar o transporte público, no discurso, é fácil. Difícil mesmo é aceitar o único caminho que funciona no mundo inteiro: ceder espaço. Sem isso, a promessa de deixar o carro em casa continuará sendo apenas isso - uma promessa que nunca sai da garagem.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes